Desencontrados

Tudo podia ter sido diferente se não fossemos os dois tão tímidos e se não estivéssemos tão desencontrados. Hoje, com trinta anos e uma filha que merecia um pai melhor, lembro-me de ti, do teu sorriso, da tua cor de pele exótica, do quanto eu gostava quando te sentavas ao meu lado no ônibus, mesmo com imensos lugares à tua disposição. Os dois éramos tão novos e inocentes, tão perdidos em nossos mundos e nossa timidez. Os dois poderíamos ter sido feitos um para o outro. Quem saberá?

Quando emigrei, senti pena dos amigos que deixei para trás. Estava num país diferente, outra escola, uma nova maneira de viver e três casas ao meu lado, estavas tu. Não tinhas noção de tua própria beleza, eu ficava corada só de olhar. A minha amiga e vizinha de cima também reparou e pediu o teu número. Ela tinha algo que eu não tinha: ousadia.

Tinhamos apenas quatorzes anos, mas já sabíamos o que era sentir borboletas desgovernadas dentro do estômago. A gente se amava sem dizer e o tempo foi passando. Estávamos com desanove anos quando me tocas-te à porta e eu desci as escadas do prédio em pijama. Tinhas dois presentes para mim. Disseste que era prenda de páscoa. Páscoa? Alguém faz isso?

Gostei dos chocolates, mas o CD eu amei. Apenas dois anos depois eu descobri a mensagem de amor que tinhas escrito para mim na folha de capa. Fiquei triste e feliz ao mesmo tempo, tu amavas-me, mas eu não soube na altura certa. Então a vida meteu-se entre os dois, mas quando te encontro na rua, hoje que não dá para te ver mais da janela do meu quarto, eu sinto novamente as borboletas e revivo novamente o sentimento. Acho que sempre te amei.

Recheio de intelectualidade

Eu leio muito, não só porque gosto, mas também para adquirir de maneira natural o vocabulário que um bom livro necessita. Um vocabulário vasto, com palavras como “âmago”, “incógnito”, “predileto”, “eufemismo”… porque os leitores precisam não só de conteúdo, como de um bom recheio de intelectualidade.

A dor de Anabela

De longe a vi
Seus olhos lacrimejavam
Isso porém eu não vi
Nem sei porque choravam

Seus longos cabelos flutuavam
Dava vontade de tocar
Pudera eu saber o que ela tinha
Para poder ajudar

Porque por vezes a única coisa que a pessoa precisa
É alguém que a ouça
Foi por isso que me aproximei
Daquela bela moça

Admito o preconceito
Pensei que pessoas bonitas não tinham razões para chorar
Eu estava tão enganada
E bastava para ela olhar

“O que se passa?” perguntei
Curiosa e preocupada
Pouco depois percebi
Que o problema dela era estar apaixonada

“Como assim?” pensei
“Pessoas bonitas sofrem por amor?”
A questão não queria calar
Face a todo o seu esplendor

“Meu amor morreu hoje” disse-me
“De um cancro faleceu”
Senti a sua dor,
O amor da sua vida morreu.

Então eu a abracei,
Mesmo que a estivesse a conhecer naquele momento
Afaguei suas lágrimas
Com carinho e alento

Ela precisava de um abraço
E falar com alguém
Pois naquele momento
Ela estava sem ninguém

Já não tinha família
Filhos nunca tivera
Eu encostei a minha mão no seu rosto e disse
“O meu nome é Vera”

Ela se apresentou também
“O meu nome é Anabela”
E desde então eu soube
O nome dessa moça bela

Esboçou um sorriso
Ainda que fraco e fechado
Eu não poderia de alguma forma
Lhe devolver o namorado

Mas eu senti vontade de o fazer,
Porque eu sou assim, gosto de ajudar
E nem me apercebi
Que já a estava a amar

Porque amigos também se amam
E é um amor como outro qualquer
A partir desse dia
Sou amiga dessa mulher.

Karma e sua Estrela

É bom acreditar que o karma existe. Que quem fez ou nos faz mal, um dia tem o que merece. Estrela esperava isso. Ela queria que fosse real, mas só via os maus dando-se bem na vida e ela que não saía da cepa torta. Até ao dia. O dia. Ela não esperava, nem nunca botara muita fé, mas um dia ganhara o Euromilhões. Duzentos e setenta milhões de euros. O bastante para viver desafogada durante o resto da vida, mas Estrela não queria viver à sombra da bananeira. Ela tinha sonhos e com a oportunidade da sua vida, aproveitou. Partiu para o seu país, Portugal, com a sua filha de três anos. Comprou uma boa casa, um carro pequeno, mas catita, porque ela queria. E foi para a Universidade. Foi fazer uma licenciatura, visando em doutorado, mestrado quem sabe… O seu sonho sempre fôra ser escritora. Tinha escrito alguns rascunhos aqui e além. Tinha talento, mas faltavam os estudos. Aí, lançou-se no mundo das letras, escreveu até mais não. Aproveitou o crescimento da filha que já tinha entrado na escola, a pequena Lua. Após a publicação do primeiro livro e com uma vida de sonho, tropeçou um dia nos pés de um homem que contava dinheiro e se enfurecia sozinho. Ela conheceu isso pelas palavras e gestos que utilizava. Era alguém que na infância lhe batera muito, alguém a quem ela desejara que o karma agisse. O homem a insultou, então reparou nas roupas, na pose. Era uma mulher rica. Estrela perguntou: “Porque te enervas tanto?”. Ele pediu desculpa. Estrela sorriu, pois ele estava fazendo uma vénia e quase beijava o chão, se rebaixando e querendo flirtar, mas não resultaria. “Olha bem para mim, Carlos Alberto. A vida podia estar a correr-te melhor, senão usasses os outros como escada ou saco de pancada”. “O quê?”. Ela se afastou dizendo feliz “O karma é lixado, Carlos Alberto. Bentito karma!”

Doença

Não é a doença em si que dá medo, são os sintomas, é quando não há mais doença para curar e sim a morte para chorar. A doença pode ser lixada, mas apenas quando é acompanhada de graves sintomas, ela é realmente levada a sério. Quando perdemos alguém de doença conseguimos entender que ela existe e não afeta só os outros, os que estão de fora, ela pode afetar-nos a nós, pode afectar os que amamos, o que vai dar ao mesmo. A doença não faz ninguém mais forte, mas transforma vítimas em lutadores, mesmo que a pessoa lute apenas com a mente, acordando e fazendo a vida como se não tivesse algo que a pode matar.

Sem sono

Gisela nunca tivera episódios de insónias. Não dormia mal, nunca, até então. Não é que dormisse mal, ela apenas não dormia. Começou por uma noite como todas as outras, onde a rotina de todos os dias acabava no lado esquerdo da cama. O do direito era do marido, porque ele dizia que não conseguia dormir do lado esquerdo. Gisela não via diferença. Ela dormia de barriga para cima e as duas mãos entrelaçavam-se uma na outra, em cima da barriga. Até aquela noite, a noite em que não dormiu nada, nunca reparara que dormia na mesma posição em que os mortos são colocados no caixão. Poderia parecer mórbido, mas depois de reparar nisso, ela não ficou chocada. Passou a noite no escuro, acordada. Descobriu assim que seu marido de vez em quando falava. Ela nunca o tinha escutado antes. Na noite a seguir aconteceu o mesmo, na terceira, sentindo-se sem sono e alerta saiu do quarto e foi para a varanda. Havia vida noturna, mas pouca. Algumas luzes acesas aqui e lá, afinal nem era muito tarde. Era uma da manhã. Com o passar do tempo, as luzes acesas foram-se apagando e outras foram-se acendendo. Era a luz daquelas pessoas que pegam muito cedo ao trabalho. Ela só pegava ao trabalho às dez horas. Ainda tinha muito tempo e não havia sinais de sono. Foi na sua estante e começou a ler um livro do marido. Não haviam muitos livros naquela casa. Ela só lera livros na escola porque estavam no programa escolar. E a sua filha adolescente também só tinha livros da escola, nada que lesse por prazer. Havia um hábito naquela casa de ter as coisas só por ter, então, talvez seu marido tivesse comprado porque achou interessante, mas Gisela sabia que ele nunca o leu. O título do livro induzia em erro. Após ela começar a ler, não largou mais. Só quando ouviu o despertador do seu marido tocar é que meteu o livro na mesinha de salão.

A sua filha acabou por reparar e até perguntou porque estava o livro fora do sítio, mas não se interessou muito. O seu telemóvel estava bem no centro de suas atenções. O marido de Gisela não desconfiava sequer que tinha dormido sozinho na cama.

Há um mês que Gisela não dormia. Não era normal e talvez a única coisa normal a fazer fosse ir ao médico, mas ninguém acreditaria em si. Alguns pensariam que era uma maneira de expressão quando dissesse “Faz cinco semanas que não durmo”. Outras que era um exagero. Mas não era. Ela realmente não dormia e ninguém desconfiava. Por não dormir já lera alguns livros por inteiro e vira do princípio ao fim a série La casa de papel. Vira o primeiro episódio por curiosidade e não largara mais. Conseguia ter tempo para tanta coisa. Poderia ter até um segundo emprego e ganhar o dobro. Depois de seis semanas, de vez em quando pegava no carro e ía até a Foz. Sentia um pouco de medo, mas não saía do carro, apenas ligava a música e olhava as estrelas. Numa dessas vezes, um homem passou ao lado de seu carro e lhe mostrou o dedo do meio. Algumas vezes via jovens bêbados ou simplesmente na brincadeira entre garrafas e piadas. De vez em quando tinha saudades de quando tivera aquela idade e o mundo parecia diferente, uma altura em que dormia e dormir era super bom.

Então uma dessas noites, viu o impensável. A pouca distância do seu carro, um homem puxava uma jovem pelos cabelos e desabotoava as calças. Ela tentou gritar, mas foi imediatamente calada por uma das mãos do homem. Gisela olhou para o interior do carro à procura de algo para servir de arma. Não havia nada. Saiu. Não muito longe estava um garrafa de Jack Daniels intacta e vazia. Correu até à cena de violação com a garrafa na mão e bateu com ela na cabeça do homem que caiu rijo no chão. A mulher alíviada e com a breguilha aberta, abotou-a com pressa e abraçou Gisela que não largara a garrafa.

– Muito obrigada – agradeceu a vítima de tentativa de violação sexual. Logo a seguir fugiu.

Gisela ficou para trás e viu o sangue que escorria da cabeça do homem. Queria muito medir-lhe a pulsação, mas o medo de o ter morto, impedia-a de largar nele suas impressões digitais. Foi embora dali diretamente para casa (mas não sem antes mandar a garrafa de Jack Daniels ao mar) e lá esperou. Na manhã do mesmo dia, quando ligou a televisão ficou estupefata com a notícia:

“Não se sabe como e o que aconteceu, mas finalmente a polícia encontrou o assassino em série de mulheres na Foz do Douro. O homem em questão dava pelo nome de Vasco Nunes, mas o seu nome de registro sempre foi Ramiro Jorgino. A identidade falsa era uma maneira de não ser apanhado. Ele violava as mulheres e depois matava-as. As encontrava de forma aleatória e ninguém tinha a mínima ideia de quem era até então.”

A fotografia do homem apareceu e era ele. Gisela congelou. Ela sabia que o tinha morto e estava estupefacta, mas não sentia pena ou remorsos. Sentiu que a falta de sono tinha uma razão de ser e agora percebia isso. Era como o destino metendo em seu caminho o que ela podia enfrentar.

“Quase fez uma nova vítima, mas uma mulher misteriosa apareceu e a salvou”. Apareceu então a mulher que quase tinha sido violada a contar o que se tinha passado. “Faz dois meses que a polícia não tem medido esforços para encontrar o assassino que já matou desanove mulheres na região central do país”. Então a jornalista citou todas as mulheres e qual não foi a surpresa de Gisela quando ouviu o nome de uma professora da escola onde trabalhara tempos atrás: Mónica Galvão. Após a notícia pesquisou pelo nome no google. Logo lhe apareceu tudo sobre a morte daquela jovem professora. Ela era solteira e vivia sozinha e morrera no dia 30 de outubro, o mesmo dia, aliás, o primeiro dia em que Gisela não dormira.

Quando a hora de os membros da família irem para a cama chegou, Gisela disse para o marido e a filha irem, que ela iria depois, mas não foi. No entanto, adormeceu no sofá. O sono tinha voltado. As coisas tinham voltado ao normal.

.

O mundo de Camila

Ela era sonhadora e vivía no seu mundo. Queria as suas rotinas bem estipuladas, a sua agenda em ordem e se algo saísse ela tinha pico de stress tão agitados que há quem chame de crises. Ela só queria paz, gostava de sair à rua, mas não de confusão. Demasiadas pessoas no mesmo lugar era demasiado para ela. Era completamente autônoma. Sabia se vestir com estilo, ela tinha o seu. Sabia ser sábia com o dinheiro. Tinha uma conta poupança de fazer inveja aos que não sabem ter dinheiro nas mãos e só andava de autocarro porque queria. Ela era muito inteligente. Ela sempre foi. Jovem se tornou independente para mostrar ao mundo que é possível e para mostrar a si mesma que é capaz de estar sozinha. Não era restringiva, mas era solitária. Não era antipática, mas não respondia a ironias ou sarcasmos da maneira que as pessoas esperavam, porque ela nunca teve poder para perceber essas duas maneiras adultas de falar. Sempre levou tudo ao pé da letra. Quando começou a trabalhar, foi com logística, por ser uma pessoa extremamente lógica. Não tivera problemas para arranjar trabalho, ela era persistente. Quando finalmente se apaixonou, mais tarde que todos os outros da sua idade, não soube como agir. Não foi correspondida, porque era diferente. Da segunda vez, alguém se apaixonou por ela pela mesma razão que o outro não se interessou por si. A diferença cativava aquele homem, mas ainda assim, ela não sabia amar. Não sabia ser romântica. Tudo era por instinto e tudo tinha que ter um objetivo no fim. Ela aprendeu que o amor não é assim, que o amor não segue lógicas e que para todos é diferente. Foi difícil se abrir, mas com o tempo se preencheu. Tudo precisou de muito tempo para alavancar, mas tudo que fez foi a bom porto. Ela era especial. Ela era autista e isso nunca a impediu de ter uma vida digna ou até melhor do que a daqueles que nunca acreditaram que ela seria capaz por ter um transtorno comportamental. Ela era a Camila e ela era sim diferente e era isso que fazia dela especial.

Quero dormir tranquila

Respiro fundo, tento me acalmar, mas está difícil. Já passa da uma da madrugada e eu acordada. Ouço a respiração da minha filha ao meu lado. Sim, ela dorme comigo, na minha cama. Tem dois anos. Somos as únicas residentes deste pequeno apartamento. Ela é uma fofura e parece um anjinho enquanto dorme. Pensei em escrever só mais um pouco. Espero que isto, pelo menos isto, me acalme, pois quero fechar os olhos e dormir de mãos dadas com a minha menina, como sempre durmo.

Rouxinol

Um rouxinol fizera seu ninho num ramo mesmo ao lado da janela de Diogo, então o jovem rapaz acordava com eles todas as manhãs. Dispensara o despertador. Não fazia falta. A voz melodiosa daqueles pássaros lindos fazia-o acordar de bom humor. Por vezes podia jurar que os passarocos olhavam para si, mas podia ser apenas sua impressão. Nunca fôra apaixonado por aves, mas aquela família de rouxinóis fizera isso mudar. Já os sentia como amigos, como parte da casa, ainda que estivessem no lado exterior. Um dia até fôra a uma loja de animais comprar bebedouros de passarinhos. Os rouxinóis usavam-nos com a máxima regularidade. Era lindo de se ver. Era lindo de se ouvir.

Então um dia ele deixou de os ouvir. Os membros da família haviam crescido e procuraram outro lugar para viver. Quem sabe, haviam construído mais alguns ninhos num sítio melhor. Diogo não sabia. O que ele sabia era que de alguma forma, aqueles passarinhos cantores tiveram um lugar especial no seu coração. Era como um toque suave em seus ouvidos. Ele sabia que nunca mais os esqueceria ou queriria esquecer.

E então cresceu e descobriu que até o que nos tocou de um jeito bom pode desparecer de nossa memória, se não habituar-mos a nossa mente a lembrar.